sexta-feira, 19 de março de 2010

Caçadores em Guerra

(Imagem retirada da Net)

Reescreva o ambiente de um conjunto de caçadores (ou de escuteiros ou de ecologistas - escolha à sua vontade) a avançar pelo campo virgem e selvagem. Reutilize algum do léxico utilizado no “Exemplo A” (texto de Mário Ventura). Não ultrapasse as sete ou oito linhas.


Do alto do monte, oiço ao longe uma pancada seca e curta, quase imperceptível fazendo lembrar uma trovoada que se aproxima aos poucos de nós. O choro aflitivo de algo ou alguma coisa. E depois o silêncio, profundo e dormente. Logo de seguida nova pancada, e apercebo-me agora que são tiros ao vislumbrar a figura de um grupo de caçadores com as suas espingardas de cano cerrado implacáveis, dirigirem-se para uma clareira, saídos do imenso arvoredo. Vejo um pato cair do céu depois de um longo grasnar de dor ao mesmo tempo que outros patos, lebres e javalis correm assarapantados com a quebra da quietude daquela mata cerrada, emitindo grunhidos cortantes que nos atravessam a alma. Os cães ladram compulsivamente e dirigem-se felizes para a sua conquista onde abocanham o pato mole e sem vida e retornam aos seus donos.

Curso Escrita Criativa - Por Rita Cardoso

(Imagem Retirada da Net)

Texto de Mário Ventura a titulo de exemplo:

“A princípio é apenas um brando murmúrio, vagamente perceptível quando ainda nada se avista, confundindo-se com o rumorejar longínquo do vento na folhagem de arvoredos invisíveis. Depois, é um ruído surdo que se torna contínuo e crescente, tão estranho e insondado que parece existir apenas dentro da nossa cabeça, e logo de seguida começa a formar-se no horizonte uma linha escura de que ainda não se percebe o movimento, mas que engrossa sempre, como uma lagarta gigante que conseguisse ligar os dois extremos da paisagem. À medida que a imagem se amplia também os sons aumentam de intensidade, tornando-se tão variados e repetitivos que adquirem uma harmonia quase musical. As botas de mil homens chocando com o solo produzem um rumor surdo, contínuo e monótono, entrecortado por sinais tão diversos como sejam o tilintar de espadas nas esporas, o chiar dos rodados dos carroções, os relinchos dos cavalos, as ordens soltas dos subalternos, e o ladrido dos cães, companheiros inseparáveis destas caravanas. Pouco a pouco, a mancha escura vai ganhando cor, com os uniformes, o pelame dos cavalos, o brilho metálico das armas e os dourados das carruagens, e da imagem sombria inicialmente avistada passa-se para um colorido que explode sob o sol, enquanto os ruídos se fazem mais distintos e impositivos, arrancando às estevas perdizes e lebres, que saltam e fogem assarapantadas na vanguarda da vaga humana que nada detém.”
(Mário Ventura, Évora e Os Dias Da Guerra, Editorial Caminho, Lisboa, 1991)

1 comentário:

Laria (Maria+Leonor) disse...

Adoro a forma como escreves. Continuo a afirmar que foste uma agradável surpresa, muito bom, mesmo! Continua a investir!
Beijocas